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Mark Malloch Brown
O vice-chanceler britânico diz que a receita para superar os problemas passa pelo combate ao protecionismo.
O vice-chanceler Mark Malloch Brown foi incumbido por seu chefe, o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, de preparar a próxima reunião do G-20, grupo que reúne as principais economias do mundo, em Londres, no próximo mês de abril. Ele falou a EXAME sobre a necessidade de transformar o encontro numa afirmação inequívoca do livre comércio como a estratégia de retomada do crescimento global.
1) O que se pode esperar de concreto da próxima reunião do G-20?
Para não fracassarmos, teremos de produzir um pacote de resoluções com o seguinte recado ao mundo: nós, os líderes das 20 maiores economias do planeta, estamos trabalhando duro para voltar a crescer juntos.
2) Mas até agora, apesar de falar em colaboração, a maioria dos países ricos tem ajudado seus bancos e suas empresas de forma protecionista.
De fato, ao produzir pacotes de estímulo, países como os Estados Unidos e a Inglaterra tiveram de correr contra o tempo, concentrando esforços nos mercados domésticos. Inicialmente, desconhecíamos as consequências sobre o crédito externo. Mas, na próxima reunião do G-20, precisamos criar princípios para evitar que futuros pacotes aumentem as barreiras comerciais.
3) O que deve ser feito caso os bancos privados americanos e europeus continuem se recusando a emprestar aos países emergentes?
Se isso continuar, precisamos garantir que os países pobres e emergentes sejam atendidos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional. É preciso deixar claro a esses países que eles não serão abandonados pelas economias desenvolvidas.
4) O que se pode esperar do governo Barack Obama em termos de apoio ao livre comércio?
Acho que o recuo de Obama, que depois dos protestos da União Europeia e do Canadá, suavizou as cláusulas protecionistas do pacote de estímulo americano. Foi uma atitude muito positiva. Aquelas cláusulas eram uma flagrante violação às regras da Organização Mundial do Comércio.
5) E o que a Inglaterra espera do governo Lula?
O presidente exerce uma enorme liderança entre os emergentes. Queremos que ele pense grande, inspirando os demais líderes do G-20 a apostar na redução das barreiras comerciais. Só o livre comércio poderá resgatar a economia mundial. Se caminharmos na direção oposta, reproduzindo o protecionismo dos anos 30, teremos um mundo muito mais fragmentado, raivoso e imprevisível.
6) Há quem diga que a Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio, está morta. É verdade?
Não. Se isso acontecesse, seria uma tragédia, porque, nos últimos anos, as negociações avançaram para um ponto extremamente próximo de um acordo.
7) O que falta para concluir Doha?
Precisamos resolver algumas questões pendentes entre os Estados Unidos e a Índia em agricultura. Apostamos que o acordo possa ser obtido no segundo semestre deste ano, quando o governo Obama já tiver tomado pé da situação.
Portal EXAME – por Angela Pimenta
Delfim Netto avalia a evolução econômica do Brasil e como o economista deve ajudar no crescimento do País
O economista, ex-ministro e professor Delfim Netto concedeu uma entrevista exclusiva ao Blog O Economista durante sua passagem por Joinville (SC), em evento realizado na Sociesc/FGV, em agosto, para debater junto aos estudantes e empresários da principal economia catarinense os aspectos macroeconômicos que afetam o crescimento do Brasil. Delfim possui uma carreira longa – com muitos erros e acertos – que o define como um dos principais economistas e políticos ainda em atividade.
Na entrevista, ele comenta sobre os caminhos adotados por FHC na busca pela estabilidade monetária, os desafios de Lula, estratégias para uma política monetária mais atraente, entraves para o crescimento interno, dificuldades que se antepõem ao aumento da oferta de energia e, por fim, a valorização do profissional economista. Delfim destaca que o atual economista não deve gastar seu tempo explicando porque o Brasil não pode crescer. O profissional deve trabalhar mais e ajudar a criar as condições para o desenvolvimento. Confira na íntegra a entrevista:
O Economista – Qual é a diferença entre o crescimento econômico dos governos Lula e FHC ?
Delfim Netto – O crescimento econômico nunca foi prioridade nos dois governos FHC. Claramente no primeiro mandato ( 1994/98 ) toda a ênfase da política econômica foi dedicada à estabilidade monetária, o que não seria um mal, propriamente. Era importante preservar os resultados do plano Real no combate à inflação, alcançados no governo anterior do presidente Itamar Franco. Isso dependia primordialmente de um forte ajuste fiscal, absolutamente necessário como complemento do esforço de estabilização até então bem sucedido. O governo FHC mostrou desde o início, no entanto, que não estava preparado para enfrentar tal desconforto. Preferiu o caminho do endividamento fácil, oferecendo taxas de juros extremamente generosas para atrair capital externo, praticamente garantindo um retorno mínimo anual de 20% reais, em dólares!
As conseqüências todos conhecem: de 1994 a 1998 houve um enorme ingresso de recursos externos (uma boa parte de capital vagabundo disponível no mundo) que produziu uma supervalorização cambial na relação real/dólar, barateando as importações e ajudando a segurar a taxa de inflação, o que vinha de encontro ao desejo da autoridade monetária. Atendia, na verdade, ao objetivo político de FHC de pleitear a reeleição, usando a bandeira da estabilidade (o combate à “carestia”), no que teve pleno sucesso. Com a inflação sob controle, custo de vida estável, recebeu apoio popular e da mídia suficiente para aprovar no Congresso a emenda constitucional que introduziu a reeleição, da qual ele foi o primeiro beneficiário.
A tragédia da política estava no outro lado da moeda: os altos juros internos privilegiaram os investimentos financeiros, derrubaram a taxa de câmbio (com uma absurda sobrevalorização do Real) e esfriaram os investimentos no setor produtivo, especialmente nos segmentos da indústria mais voltados para as exportações. O crescimento da economia começou a murchar, as exportações se inviabilizaram graças ao câmbio sobre valorizado e rapidamente apareceu um déficit nas contas externas do país.
O governo FHC enveredou pelo aparentemente mais cômodo mas, na verdade, o pior dos caminhos: o endividamento externo para financiar o déficit em contas-correntes. Em quatro anos o país havia acumulado uma dívida de 186 bilhões de dólares. No período, as exportações brasileiras cresciam a um ritmo de 3% ao ano, enquanto a dívida crescia a uma média anual superior a 6%. Não era preciso conhecer física quântica para concluir que o Brasil ía quebrar e foi o que aconteceu em 1998. Estávamos às vésperas do pleito que iria reeleger FHC.
Para evitar o “défault” brasileiro que produziria grande perturbação nas eleições (num Continente já perturbado na ocasião), o presidente norte americano Bill Clinton providenciou junto ao FMI um empréstimo de 40 bilhões de dólares e as eleições se realizaram em calma. Os brasileiros que reelegeram FHC só tomaram consciência da tragédia dois mêses depois, em janeiro de 1999, quando o Real se desvalorizou da noite para o dia, o regime cambial mudou e a taxa de câmbio flutuou para uma relação em torno de R$ 3,00/$ 1,00 dólar americano.
Nos primeiros momentos do segundo mandato de FHC a economia ensaiou uma tênue recuperação, mas em 2001 aconteceu o desastre do “apagão” energético, fruto do abandono do planejamento público e do descaso com os investimentos na infraestrutura, especialmente na hidroeletricidade. O governo se declarou “surpreso” e tentou uma reação investindo na construção de termelétricas, o que amenizou um pouco a carência de energia, mas aumentou a sujeira ambiental.
O resumo da “octaetéride” fernandista em termos de desenvolvimento foi infelizmente um crescimento pífio do PIB nacional e uma queda na taxa de crescimento per capita para menos de 1% anuais. De positivo, no período, as privatizações nos setores da telefonia e siderúrgico/mineral. A conquista da estabilidade da moeda, um êxito inegável, deixou desnecessariamente um saldo negativo pesado no setor externo, destruiu uma parte do setor exportador brasileiro e penalizou barbaramente a agropecuária que sofreu uma drenagem violenta de recursos em favor dos consumidores urbanos.
Governo Lula
O governo Lula começou em 2002 tendo que enfrentar logo nos primeiros meses uma recidiva da inflação, insuflada pelos adversários durante a campanha eleitoral com o mote “o Brasil vai se tornar uma Argentina!” e ajudada pela excitação que tomou conta do mercado financeiro onde uma boa parte dos “investidores” e analistas não escondia suas simpatias tucanas.
O Ministério da Fazenda e o Banco Central radicalizaram as políticas monetária e fiscal elevando a taxa de juros e aumentando a projeção do “superávit”. Em seis meses as taxas da inflação cederam, os mercados se acalmaram e o governo Lula pode se dedicar aos programas sociais, de combate à fome, bolsa-escola e bolsa-família que formavam o núcleo de suas promessas eleitorais sintetizadas no objetivo de contribuir para a maior igualdade de oportunidades e melhorar a distribuição da renda.
O ponto de inflexão da política em relação ao período anterior foi, contudo, a mudança da agenda governamental que passou a priorizar o desenvolvimento econômico, mediante estímulos ao setor produtivo privado. Uma demonstração prática importante foi dada pela convocação do setor privado para iniciar a reconstrução da infra-estrutura física do país, com a realização dos leilões de concessão rodoviária que atraíram um número expressivo de empresas nacionais e do exterior; em seguida a decisão de também entregar ao setor privado a recuperação da matriz energética, realizando os leilões para construção e exploração das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira.
O Economista - Um plano como o PAC seria a forma ideal de tratar a questão do crescimento em um país como o Brasil?
Delfim Netto – Pode não ser a forma ideal, mas a listagem dos projetos serve para informar a sociedade das intenções do governo no que se refere aos investimentos na infra-estrutura e para transmitir certa orientação aos empresários sobre os setores que serão incentivados e, portanto receberão atenção prioritária do setor público. Ajuda no próprio planejamento da administração e vem funcionando como estímulo aos empresários, até um pouco acima do esperado.
Pode ter sido inicialmente o produto da intuição do Presidente Lula, mas o que se constata é que as ações de seu governo trouxeram de volta o ânimo empreendedor, despertando o que se costuma chamar de “espírito selvagem” do empresário para correr os riscos do investimento. O fato é que a economia brasileira voltou a crescer de forma robusta, como não acontecia há 20 anos, como preconiza o PAC.
O Economista – O câmbio, com o dólar desvalorizado, pode complicar o crescimento?
Delfim Netto –O problema não é a desvalorização do dólar que se reflete, como num espelho, na valorização das demais moedas do mundo. O nosso problema é a valorização excessiva do Real, produzida pela política monetária do Banco Central que se caracteriza pela manutenção de altas taxas de juro, as maiores do mundo, já há vários anos! A diferença da taxa de juros brasileira com as taxas praticadas no mercado internacional atrai aplicações especulativas que proporcionam altos rendimentos praticamente sem riscos. O ingresso desses capitais em grande volume, que não têm nenhum compromisso com o setor produtivo brasileiro, produz um forte desequilíbrio no câmbio, mantendo uma taxa favorável às importações e absolutamente desfavorável (em muitos casos impeditiva) às nossas exportações!
São absolutamente inconsistentes as justificativas que o Conselho de Política Monetária do BC divulga como fundamentos de suas decisões para a elevação da taxa juros como a forma eficaz de garantir o cumprimento das metas de inflação. Há uma força estranha que faz com que se repita o mesmo expediente de recorrer à valorização da taxa de câmbio como instrumento de combate à inflação. Ele foi usado com certa freqüência nos últimos 20 anos, retardando a expansão das nossas exportações e causando enormes prejuízos ao setor industrial brasileiro. Menos mal que depois de muito esforço o Ministério do Desenvolvimento conseguiu emplacar algumas medidas de caráter fiscal e tributário que poderão ajudar o esforço exportador.
O Economista – Como o Brasil pode superar dois entraves de crescimento interno: a oferta de energia e o déficit em contas correntes?
Delfim Netto – O senhor levanta os dois problemas que decidem se o crescimento brasileiro é sustentável. No primeiro caso, nós tivemos o exemplo do “apagão” energético de 2001 que liquidou com a possibilidade de crescimento no restante do mandato de FHC. Já no governo Lula, a demora na definição dos investimentos para recuperar a matriz energética acendeu uma luz amarela, mas a partir de 2006 os reservatórios das hidrelétricas voltaram aos índices de segurança e os novos projetos finalmente foram autorizados. Neste capítulo creio que o risco foi afastado e se pode prever que não teremos problemas de oferta da hidroenergia. O mesmo se verifica em relação ao petróleo, dado que as descobertas recentes no pré-sal e os investimentos em curso para o fornecimento do etanol e demais fontes alternativas garantem a oferta segura pelos próximos vinte a vinte e cinco anos.
Quanto à conta-corrente a situação é atualmente tranqüila: com todos os erros que mantém o câmbio fora do seu ponto de equilíbrio, o Brasil acumulou um volume de reservas que poderá ser usado para enfrentar turbulências nos mercados financeiros ou perda de dinamismo nas exportações. No médio prazo dá para enfrentar problemas de mediana dificuldade, mas este é um campo em que nós já apanhamos muito por deixar tencionar a corda. Significa que num dado momento não muito distante de hoje a política monetária terá que ser tratada com mais inteligência: significa, sim, baixar a nossa taxa de juros de modo a aproximá-la dos níveis mundiais, permitindo ao câmbio procurar a taxa de equilíbrio que desobstrua as exportações e, principalmente, estimule a retomada dos investimentos para expandir o nosso comércio exterior.
O Brasil não precisa praticar taxas de juros tão escandalosamente superiores às de seus parceiros comerciais, que hoje estão em torno de 2% ou 3% ao ano em termos reais (e não são poucos os que operam com taxa negativa)!
O Economista – Como o profissional economista se insere nesse novo panorama nacional e mundial de constantes mudanças na economia?
Delfim Netto – A função do economista no Brasil deve ser ajudar a remover as dificuldades que tolhem o crescimento. O economista não deve gastar seu tempo explicando porque o Brasil não pode crescer. Qualquer um pode fazer isso. Então, para mim, o que justifica a profissão do economista é que ela pode ajudar realmente a criar as condições para o desenvolvimento.
Fonte: Blog O Economista
Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi.
O futuro da telefonia móvel ultrapassa as barreiras do simples serviço de telecomunicações. “O celular vai virar cartão de crédito. Eu não tenho nenhuma dúvida”
10 perguntas para Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi.
O que podemos esperar para a telefonia móvel daqui a 5 anos? Realmente poderemos falar por wireless ilimitadamente por um preço fixo? Usaremos os celulares como cartões de crédito?” Severino Gonçalves Duarte Filho – Florianópolis (SC)
A adoção do uso ilimitado por um preço fixo eu acho pouco provável. Mas o celular vai virar cartão de crédito. Eu não tenho nenhuma dúvida.
Com forte know-how no setor de transporte, cite alguns pontos que você aprendeu no mercado aeronáutico que podem ser aplicados no mercado de telefonia? Anselmo Cassiano – Boston (EUA)
Os dois são indústria de serviço. E todo tipo serviço sempre tem muitas semelhanças. Tanto faz ser uma administradora de cartão de crédito, uma operadora de telefonia celular ou empresa aérea. O desafio é fazer um serviço continuado e agradar o cliente durante toda a vida.
Ainda há espaço para outras operadoras na telefonia móvel no Brasil? José Valter – São Paulo (SP)
Quatro operadoras grandes parece ser um número interessante para o Brasil. Mas, obviamente, sempre há um lugar para operadoras de nicho. Nossa entrada em São Paulo mostra que há espaço para quem quiser ser criativo.
Como empresas como a Oi podem promover a inclusão digital e o aumento do fluxo de dados com o Wimax? Essa tecnologia não deveria estar disponível para a base da pirâmide ao mesmo tempo que para o topo? Quais as oportunidades que a Oi enxerga nessa convergência? Adolfo Menezes Melito – São Paulo (SP)
O WiMAX é mais uma alternativa para a oferta de banda larga. Por suas características, pode ser uma boa solução técnica para regiões de baixa densidade de clientes, que muitas vezes não oferecem as condições necessárias para a expansão da rede DSL ou de cabo coaxial. A Oi tem todo interesse em explorar essa tecnologia e aguarda a retomada da licitação de freqüências.
Um serviço que está vendendo bem no mercado de telecom é o acesso móvel à internet em banda larga, os populares modems 3G. Por que a Oi não lança o acesso 3G pré-pago? Ricardo Mendonça – Recife (PE)
Estamos estudando o acesso 3G pré-pago. Mas o que lançamos recentemente foi a política de dar três meses de experimentação grátis para o usuário em alguns de nossos serviços. Se o usuário não gostar não precisa pagar multa nenhuma. É uma quebra de paradigma. Não é exatamente o pré-pago que o leitor pediu. Mas a gente ainda vai chegar lá.
Qual é o desafio para formar e administrar uma nova empresa num mercado tão competitivo como o de telecomunicações? Ricardo Ferreira Gazoli – Campinas (SP)
A diferença das empresas não é software, não é o hardware. É o que eu chamo de peopleware. É o seu time, a sua gente e o jeito que você motiva os funcionários.
Edição 23 – Janeiro de 2009 | 07/01/2009 – epocanegocios.com.br/extras
O preço da Inovação
Entrevista.
Manter a capacidade de inovar, mesmo ao custo de sucatear a própria tecnologia, é hoje o principal desafio da Microsoft.
10 Perguntas para Miche Levy, presidente da subsidária brasileira da Microsoft.
1 Qual a qualidade profissional que o fez presidente da subsidiária da maior indústria de software do mundo? E como chegou ao cargo sem antes ter atuado no ramo de software? Felipe Matos | Brasília, DF
Tenho uma boa experiência com gestão de pessoas, formação de equipes e também grande familiaridade com tecnologia, não como fim, porque a minha formação não é de tecnologia, mas como conseguir pegar a tecnologia e transformá-la em benefício para o negócio. Tive uma empresa na área de informática, depois atuei em telefonia celular. Essa familiaridade e o fato de conhecer e fazer a ponte com o consumidor foram características importantes para essa função.
2 Qual a decisão mais difícil que já tomou na carreira? Danilo Cruz dos Reis | Guarujá, SP
Ao longo da carreira você se depara com várias encruzilhadas. Então é preciso tomar decisões difíceis de tempos em tempos. Talvez a mais difícil e de maior impacto foi quando decidi vender meu negócio, após dez anos, para ir para o mercado corporativo. Foi uma mudança de vida significativa. Fiz o caminho inverso ao de muitos profissionais, que fazem carreira em empresas e depois montam seu negócio.
3 Como define seu estilo de liderança? E, na sua opinião, o que fez o sucesso da Microsoft? Maria do Rosário Martins da Silva | Timóteo, MG
Tem uma coisa na Microsoft com a qual me identifiquei muito, que é a gestão compartilhada, aquela que transfere para as pessoas o poder de decisão e de discernimento. É um trabalho de time. Gosto muito da filosofia de administrar por meio das pessoas. Você delega tudo, menos a responsabilidade, que continua sua. Afinal, alguém precisa tomar a decisão final. Esse trabalho em rede, em time, assim como a valorização das pessoas, são características da Microsoft e estou muito à vontade com elas.
4 Quais serão os maiores desafios a serem enfrentados pela Microsoft nos próximos dez anos? E o que mudou em relação aos últimos dez?Thiago Guimarães Q. de Araújo | Brasília, DF
Se olharmos os últimos 30 anos, a Microsoft talvez seja a empresa que mais tenha gerado impactos na forma como as pessoas vivem e trabalham, no lazer, na educação, em várias dimensões da vida. E ela vai continuar fazendo isso, por meio da inovação. Qual a fórmula da Microsoft? É capturar os melhores talentos disponíveis, investir neles e inovar. Gerar inovação constantemente, com altos investimentos.
5 Que importância tem o Brasil para a Microsoft mundial? Agostinho Iarito Sato | Caxias do Sul, RS
Temos uma importância muito grande, assim como outros mercados emergentes. O Brasil é um país emergente, mas que combina um componente mais maduro. Temos uma economia que nos últimos dez anos se mostrou estável. Temos um ambiente político também estável, um mercado grande. Estamos no Bric. E por essas razões o Brasil está entre as cinco operações mais importantes para a Microsoft no mundo e entre as três que mais crescem.
6 Como a Microsoft vai superar a questão de concorrer com a própria Microsoft na questão dos upgrades de softwares? Renato Ferrari | São Paulo, SP
Nosso principal motor de inovação é ter a coragem e a visão de transformar o próprio produto, sucatear a própria tecnologia. Na indústria de celular, por exemplo, aparece um modelo novo a cada seis, dez ou 12 meses. Então aquele dispositivo anterior não deixou de ter utilidade, mas tem um outro mais avançado. Isso é parte intrínseca do processo de inovação.
7 A Microsoft dominou o mercado dos desktops, mas terá a mesma competência nos dispositivos móveis?Nelson Melo | Santos, SP
Cada vez mais a tecnologia que a Microsoft desenvolve depende dos dispositivos. Então, a estratégia é criar tecnologia – o software e as aplicações – que seja transversal e independente dos dispositivos, inclusive integrando-os. Hoje é possível ter as informações rodando no desktop sincronizadas com o dispositivo móvel, como o celular, e também sincronizadas com o repositório de arquivos digitais. Essa é uma tendência e a Microsoft é talvez uma das únicas empresas que conseguem fazer essa integração rapidamente.
8 A Microsoft perdeu a primeira parte da corrida pela internet. O Google tem o melhor sistema de buscas e domina os anúncios pela web. Como a Microsoft se prepara para esse ataque na sua principal área de atuação? Flávio Arnaldo Braga da Silva | Maringá, PR
A internet tem mais de uma década e a questão de chegar ou não na frente não é mais tão relevante. O Google sem dúvida domina o mercado de buscas e o mercado de publicidade online. A Microsoft acredita que outros modelos de negócio virão. Esse jogo só está começando. Estamos expandindo o conceito de software embarcado para atender melhor às necessidades. A maior disponibilidade de banda e o fato de o cliente estar sempre online permite combinar adequadamente o mundo do software embarcado com a riqueza da internet.
9 O que a Microsoft pode fazer pela inclusão digital no Brasil? Fabiano Hott | Nova Iguaçu, RJ
Pode fazer muito e acredito que estejamos fazendo. A Microsoft tem vários programas cujo foco é a educação. Seja a educação como um fim, seja como um meio de capacitar as pessoas para a sociedade do conhecimento. Temos um programa de inclusão digital básico para jovens de comunidades desfavorecidas; outro chamado Parceiros na Aprendizagem, que dá ferramentas de tecnologia da informação para professores e alunos utilizarem no ensino.
10 Por que a Microsoft tem sistematicamente lançado produtos e constatado problemas após a utilização pelos usuários? Wanderson Gomes de Azevedo | Brasília, DF
Quando se inova na velocidade da Microsoft, não existe produto perfeito. É uma entidade viva. Talvez você se refira ao Windows Vista, que de fato apresentou problemas de compatibilidade, pois há uma infinidade de aplicações. Esse problema foi superado e o produto ficou melhor – aprendemos com os usuários. Isso faz parte da inovação. É o preço que qualquer companhia que inova paga.
Edição 21 – Novembro de 2008 | 14/11/2008
Há um lado positivo
Entrevista.
A crise forçou os Estados Unidos a enfrentar os maus hábitos das últimas décadas. Quando o país se livrar deles, a dor de hoje resultará em ganhos.
A reportagem fala da possível virada da economia americana sobre a situação presente e, consequentemente, os possíveis ganhos (longo prazo) que poderá ser colhido desse grande buraco financeiro depois de superado. A seguir, acompanhe alguns trechos:
“Eles têm ferramentas potencialmente ilimitadas à disposição, especialmente se agirem em conjunto. Podem nacionalizar empresas, convocar feriados bancários, suspender pregões por semanas, comprar débitos e ações e renegociar hipotecas…” Segue: “…essas ferramentas têm efeitos de longo prazo que são problemáticos, mas eles não são nada comparados ao colapso do sistema financeiro”.
“O que vai ser necessário para interromper a queda? Quanto vai custar? Quanto tempo vai demorar para os planos de resgate começarem a dar resultado? Não se sabe…”
“Desde os anos 1980, os americanos consumiram mais do que produziram – e deram conta da diferença tomando emprestado. Duas décadas de dinheiro fácil e produtos financeiros inovadores significaram que praticamente qualquer um podia tomar dinheiro emrestado para qualquer próposito.”
Segurem-se: “O débito dos lares americanos saltou de US$ 680 bilhões, em 1974, para US$ 14 trilhões hoje. O endividamente dobrou nos últimos sete anos. O lar médio americano tem 13 cartões de crédito e 40% deles rolam dívidas – eram 6% em 1970.”
Sobre o ex presidente do FED, o economista Alan Greenspan: “Calote russo? Redução da taxa de juros. Bug do milênio? Redução da taxa de juros. O Nasdaq caiu? Redução da taxa de juros. A economia desacelerou depois do 11 de setembro? Redução da taxa de juros…” “Por fim, depois de dar esteróides ao mercado imobiliário, a estratégia criou nós grandes demais para desatar.”
“O Relógio da Dívida Nacional, em Nova York, não tinha mais lugar para mostrar os números. Os donos estão pensando em comprar um novo no ano que vem.”
“No curto prazo, todas as soluções para a crise atual pedem que os governos assumam mais dívidas e obrigações maiores. Isso é invevitável e necessário. Mas não quer dizer que os EUA deveriam, como defende alguns economistas, estimular a economia com mais cortes de juros. Isso seria apenas mais uma forma de deixar a festa continuar artificialmente.”
“É como pedir para um alcoólatra ir aos A.A no ano que vem, mas, enquanto isso, ele pode beber mais uísque. Um estímulo melhor seria anunciar e apressar grandes projetos de infra-estrutura e energia. Eles são investimentos não consumo, e podem causar um efeito diferente sobre as contas fiscais do país.”
“Ela será dolorosa para um país que se acostumou a ter tudo. Mas os americanos se tornarão mais fortes no longo razo. Se puderem aprender as lições certas com esta crise, os EUA mais uma vez jogarão pelas próprias regras. E isso não pode ser ruim.”
Fareed Zakaria é colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA.
Matéria publicada na edição de nº544 da Revista Época/OUTUBRO 2008