O que o Lula não precisaria ter falado.
A declaração de Lula sobre brancos de olhos azuis foi uma tentativa de dizer que o mundo não aceita mais ser dirigido de cima para baixo pela elite dos países desenvolvidos.
Essa visão está certíssima. Eu nunca achei que um país, qualquer país, devesse aceitar orientação de fora — mas reconheço que muita gente só aprendeu a lição depois da catástrofe econômica.
Só que o Lula, que é um comunicador superior a quase todos os políticos em atividade no mundo, disse outra coisa. Disse que a culpa pela crise era dos “brancos de olhos azuis.”
Prosseguiu no raciocínio para dizer que não conhece um “banqueiro negro nem índio.” Reafirmou tudo o que disse ao explicar que não fazia ideologia. Ou seja: não só disse o que disse mas se mostrou convencido de que falava a realidade.
Acho que ninguém tem o direito de assumir uma postura paternalista diante de um presidente que é maior de idade, ganhou duas eleições presidenciais, foi vacinado e tem cumprido suas obrigações com o país. Não faz sentido. Lula não precisa de intérpretes.
É razoável discutir o que ele disse e não o que tentou dizer.
O presidente empregou estereótipos e fantasias de cunho racista para falar sobre a crise. E isso é ruim e errado. Por que?
Em primeiro lugar, porque estereótipos racistas são uma forma de definir uma pessoa, classificar suas idéias e atitudes a partir de sua herança genética. É uma das atitudes politicamente mais primitivas e nocivas que existe. Impede a discussão de idéias, sufoca o debate sobre valores e alternativas.
Em segundo lugar, não importa se uma boa parte da população européia tem a pele branca e os olhos azuis. O que importa são as decisões de seus governantes, de seus empresários e a atitude de sua população.
Associar cor da pele e desempenho em qualquer atividade é um exercício indevido, improdutivo, pouco inteligente. Cria ressentimentos, fala a instintos ruins.
E é uma atitude ainda mais lamentável quando parte de um governo que está colocando o debate sobre raças de uma forma como nunca se fez antes, pela criação de cotas nas universidades.
Mesmo quem apoia a política de cotas deve admitir que não é uma boa idéia o presidente da República criticar “brancos de olhos azuis” nessa hora.
Tenho certeza de que algumas pessoas sentiram-se vingadas com essa frase de Lula. Muitos brasileiros sentem-se discriminados, agredidos, desrespeitados. Compreendo esses sentimentos. Sou brasileiro.
Mas acho isso ruim para elas e para o país.
Um presidente deve ser o exemplo. Deve ensinar. Não foi o que Lula fez.