Há um lado positivo
Entrevista.
A crise forçou os Estados Unidos a enfrentar os maus hábitos das últimas décadas. Quando o país se livrar deles, a dor de hoje resultará em ganhos.
A reportagem fala da possível virada da economia americana sobre a situação presente e, consequentemente, os possíveis ganhos (longo prazo) que poderá ser colhido desse grande buraco financeiro depois de superado. A seguir, acompanhe alguns trechos:
“Eles têm ferramentas potencialmente ilimitadas à disposição, especialmente se agirem em conjunto. Podem nacionalizar empresas, convocar feriados bancários, suspender pregões por semanas, comprar débitos e ações e renegociar hipotecas…” Segue: “…essas ferramentas têm efeitos de longo prazo que são problemáticos, mas eles não são nada comparados ao colapso do sistema financeiro”.
“O que vai ser necessário para interromper a queda? Quanto vai custar? Quanto tempo vai demorar para os planos de resgate começarem a dar resultado? Não se sabe…”
“Desde os anos 1980, os americanos consumiram mais do que produziram – e deram conta da diferença tomando emprestado. Duas décadas de dinheiro fácil e produtos financeiros inovadores significaram que praticamente qualquer um podia tomar dinheiro emrestado para qualquer próposito.”
Segurem-se: “O débito dos lares americanos saltou de US$ 680 bilhões, em 1974, para US$ 14 trilhões hoje. O endividamente dobrou nos últimos sete anos. O lar médio americano tem 13 cartões de crédito e 40% deles rolam dívidas – eram 6% em 1970.”
Sobre o ex presidente do FED, o economista Alan Greenspan: “Calote russo? Redução da taxa de juros. Bug do milênio? Redução da taxa de juros. O Nasdaq caiu? Redução da taxa de juros. A economia desacelerou depois do 11 de setembro? Redução da taxa de juros…” “Por fim, depois de dar esteróides ao mercado imobiliário, a estratégia criou nós grandes demais para desatar.”
“O Relógio da Dívida Nacional, em Nova York, não tinha mais lugar para mostrar os números. Os donos estão pensando em comprar um novo no ano que vem.”
“No curto prazo, todas as soluções para a crise atual pedem que os governos assumam mais dívidas e obrigações maiores. Isso é invevitável e necessário. Mas não quer dizer que os EUA deveriam, como defende alguns economistas, estimular a economia com mais cortes de juros. Isso seria apenas mais uma forma de deixar a festa continuar artificialmente.”
“É como pedir para um alcoólatra ir aos A.A no ano que vem, mas, enquanto isso, ele pode beber mais uísque. Um estímulo melhor seria anunciar e apressar grandes projetos de infra-estrutura e energia. Eles são investimentos não consumo, e podem causar um efeito diferente sobre as contas fiscais do país.”
“Ela será dolorosa para um país que se acostumou a ter tudo. Mas os americanos se tornarão mais fortes no longo razo. Se puderem aprender as lições certas com esta crise, os EUA mais uma vez jogarão pelas próprias regras. E isso não pode ser ruim.”
Fareed Zakaria é colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA.
Matéria publicada na edição de nº544 da Revista Época/OUTUBRO 2008